// em leitura...


Música

Editors – In This Light And On This Evening

Se Fernando Pessoa tivesse de descrever o novo álbum dos Editors, que diria ele? “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” é uma forte possibilidade e talvez a mais apropriada para este In This Light And On This Evening, o terceiro disco da banda inglesa.

Mas porquê? Quando falamos da Coca-Cola percebemos as razões deste slogan, não só porque no início esta bebida gaseificada era diferente de tudo a que os consumidores estavam habituados mas também porque após a primeira prova, o gosto por esse refrigerante aumenta consideravelmente ao ponto de se massificar por todo um vasto planeta, repleto de gostos e culturas diferentes. Um feito que poucos se podem gabar! Mas que tem isto a ver com o novo álbum dos Editors?

In This Light And On This Evening é o regresso de uma das bandas mais aclamadas dos últimos anos, ninguém tem como negar o sucesso que Editors começaram a ter, e após dois discos com bastante sucesso no mercado, um terceiro tinha obrigação de vir marcar ainda mais a influência que a banda teve na indústria, não esquecendo também aquilo que os influencia nas músicas que criam. Uma homenagem honesta aos marcantes Joy Division ou aos fugazes The Chameleons UK mas sem que os quatro elementos se esqueçam que eram uma nova banda, e não uma cópia de todas as outras nas quais se inspiram.

Mas para onde foi essa inspiração no terceiro disco? Continuamos nos anos 70 e 80, a voz intensa e melancólica de Tom Smith continua a marcar todas as faixas, contudo, os ritmos rock foram algo esquecidos… Como uma banda rock se esquece de fazer rock? Não esquece! Tenta é ir buscar, ainda mais, inspiração às décadas que marcaram os dois primeiros discos e passamos de algo construído à volta de instrumentos de cordas e de precursão para algo mais electrónico, repleto de trabalho de teclas e composição computorizada que os aproxima mais do género pelo qual se inspiram, mas que também os afasta bastante daquilo que lhes deu sucesso e prestígio.

São nove as músicas que o ouvinte terá acesso neste novo álbum, portanto o tempo que a banda tinha de conquistar o público era bem reduzido e começou bastante mal! In This Light and On This Evening, nome do disco e nome da primeira música, espanta o ouvinte começando com um ritmo claramente nada convencional.

Nada contra um revivalismo dos ritmos dançantes dos anos 80, já que os adoro, e muito menos nada tenho contra uma banda que se tente reinventar e fugir da monotonia, bem pelo contrário. A inspiração em filmes como Terminator era uma afirmação, feita pela própria banda, que só por si mostrava bem que íamos estar perante algo novo e diferente daquilo que já conhecíamos, mas quando tal acontece, a única exigência que existe é que seja bom, não apenas uma recuperação dos toques e maneirismos de uma determinada época e que não faça nexo algum.

Será que estava a ficar de pé atrás com esta nova renovação? Tendo em conta que é uma banda que tenho muito em consideração e que, acima de tudo, gosto bastante, esperei pela segunda música e o terror que a primeira impressão causou começou a desaparecer com Bricks and Mortar. Isto sim, já era algo que a banda nos habitou. Continua a parecer Editors, mas conseguem introduzir esta nova onda mais electrónica. A união perfeita. Papillon, o single de lançamento, prolonga a onda electrónica, sendo uma das faixas mais dançáveis de todo o disco, e You Don’t Know Love consegue acalmar o medo que se formou na primeira música, mas ficará o ouvinte descansado por muito tempo?

Não! The Big Exit volta a assustar, levando o ouvinte a questionar-se sobre a sua sanidade mental! Segue-se The Boxer e começámos a notar um padrão. Será que Editors colocaram músicas consideravelmente más antes de outras músicas bem melhores só para que o ouvinte se espantasse ainda mais com o contraste? The Boxer é bem capaz de ser das melhores músicas de todo o disco, daí que após a audição da música anterior, o ouvinte tenha de reformular a sua teoria da sanidade mental. Não somos nós que temos de temer pela nossa sanidade, temos é de perguntar se a banda já a perdeu!

As últimas três músicas, Like Treasure, Eat Raw Meat = Blood Drool e Walk the Fleet Road colocam o ouvinte na recta final do disco e não desiludem, mas também não surpreendem, mantêm-se com poucas invenções, além de ainda existirem, e asseguram que a audição do álbum termina sem qualquer tipo de estranheza ou desagrado.

O que se passou então com este novo disco? Editors perderam de vez o juízo? Para a segunda questão tenho resposta: não; já a primeira, ficará a pairar no terceiro álbum e só o leitor, após várias audições de In This Light And On This Evening poderá chegar a uma conclusão. Portanto, estranha-se o novo disco? Sem dúvida que sim, mas algumas músicas vão fazer com que todo ele se entranhe no ouvinte e que passemos a gostar bastante deste novo disco, ainda assim somos capazes de fazer a típica careta de quando bebemos Coca-Cola a mais e o gás “sobe” à cabeça.

Discussão

Sem Comentários for “Editors – In This Light And On This Evening”

Post a comment